Ao avançarmos pelo livro de Deuteronômio, a Parashá da semana passada, Ki Teitzei, apresentou uma grande variedade de mitzvot — orientações sobre o cotidiano, justiça e compaixão. Esses mandamentos tinham o objetivo de guiar o povo de Israel na preparação para entrar na Terra Prometida, formando uma sociedade baseada em equidade e santidade. Agora, em Parashat Ki Tavo, o foco se desloca dos detalhes das leis para as cerimônias e declarações marcantes que assinalam a entrada do povo na terra, bem como as consequências de suas escolhas dali em diante.
De forma simples, é isso que acontece em Parashat Ki Tavo: Quando os israelitas entrarem na terra que Deus lhes concede, deverão levar as primícias da colheita ao local escolhido por Deus para ali habitar Seu nome. Cada um deve colocar sua cesta diante do altar e recitar uma declaração, relembrando a trajetória dos antepassados — desde os tempos de arameu errante, passando pelo sofrimento no Egito, até a libertação por Deus. Essa declaração termina com gratidão pela terra e sua fartura. Depois, todos devem celebrar junto com o levita e o estrangeiro que estiverem entre eles.
A cada três anos, chamado de ano do dízimo, os israelitas devem separar um décimo da produção para o levita, o estrangeiro, o órfão e a viúva. Após distribuir esses dízimos, fazem uma declaração especial diante de Deus, afirmando que cumpriram todos os mandamentos relativos ao dízimo e que não retiveram ou desviaram nada. Em seguida, pedem a bênção de Deus sobre a terra que receberam.
Moisés então lembra ao povo que eles escolheram Deus como seu Deus e decidiram seguir Seus mandamentos; em troca, Deus os escolheu como Seu povo precioso, prometendo-lhes louvor, renome e honra acima de todas as nações, caso permaneçam fiéis às Suas leis.
No mesmo dia, Moisés ordena ao povo que, ao atravessar o rio Jordão, erga grandes pedras, cubra-as com cal e escreva nelas todas as palavras da Torá. Essas pedras devem ser colocadas no Monte Ebal. Ali também devem construir um altar, oferecer sacrifícios e se alegrar diante de Deus.
Depois, Moisés e os anciãos instruem o povo sobre uma cerimônia marcante: Seis tribos ficarão no Monte Gerizim para abençoar o povo, e seis no Monte Ebal para as maldições. Os levitas proclamarão em voz alta uma série de maldições para determinados pecados — como fabricar ídolos, desonrar os pais, mover marcos de vizinhos, enganar o cego, distorcer a justiça dos mais vulneráveis e várias formas de imoralidade e violência. Após cada maldição, todo o povo deve responder "Amém".
Em seguida, Moisés detalha as bênçãos que virão se o povo ouvir os mandamentos de Deus: Serão abençoados na cidade e no campo, com filhos, colheitas e rebanhos em abundância. Os inimigos serão derrotados, os celeiros estarão cheios e serão estabelecidos como povo santo de Deus. Todas as nações verão que são chamados pelo nome de Deus e terão respeito por eles. Emprestarão a muitas nações e não tomarão emprestado, estarão sempre por cima e nunca por baixo, enquanto obedecerem aos mandamentos divinos.
No entanto, se não ouvirem os mandamentos de Deus, uma longa lista de maldições os aguardará: Serão amaldiçoados na cidade e no campo, com doenças, seca, derrotas e confusão. As colheitas fracassarão, filhos e rebanhos serão levados, e acabarão dispersos entre outros povos. Servirão a nações estrangeiras, vivendo com fome e medo, e suas vidas serão marcadas por ansiedade e incerteza. As maldições são detalhadas e severas, descrevendo sofrimento, exílio e desespero — tudo como consequência do abandono da aliança com Deus.
A Parashá termina com Moisés relembrando ao povo todos os milagres realizados por Deus no Egito e no deserto, e exortando-os a manter a aliança de todo o coração e alma.
Uma ideia marcante que emerge desta Parashá é o poder transformador da gratidão e do reconhecimento. A cerimônia das primícias não é apenas um ato de dar; trata-se de lembrar de onde viemos, reconhecer as dificuldades do passado e agradecer pelas bênçãos do presente. Esse gesto de gratidão não é privado — é público e coletivo, unindo o povo em memória e propósito comuns. A Torá ensina que a verdadeira bênção não está apenas na fartura material, mas na capacidade de enxergar nossa vida como parte de uma história maior, lembrar nossas raízes e agradecer. Essa postura molda nossa relação com os outros, com a terra e com Deus, sendo a base para uma vida plena e abençoada.
Criado por Rabino Ari (IA)
