Ao abrirmos a Parashat Va’ethanan, é útil recordar os momentos finais da Parashat Devarim. Lá, Moshe iniciou seu discurso final aos israelitas, relembrando sua jornada desde o Egito, suas lutas e fracassos—especialmente o episódio dos espiões que levou a quarenta anos de peregrinação. Esse contexto é fundamental, pois Va’ethanan continua a despedida de Moshe, agora com foco na esperança, orientação e nos princípios centrais que definirão o futuro da nação na Terra de Israel.
A Parashat Va’ethanan começa com o sincero apelo de Moshe a Deus, pedindo permissão para entrar na Terra Prometida. Deus, porém, recusa, instruindo Moshe a subir ao Monte Pisga para ver a terra de longe. Moshe então se volta ao povo, exortando-os a cumprir fielmente as mitzvot (mandamentos), alertando contra acrescentar ou retirar qualquer coisa das leis da Torá. Ele os lembra das consequências da idolatria, mencionando o trágico episódio de Baal Peor, e enfatiza que a sabedoria e grandeza deles entre as nações virão da observância dos estatutos de Deus.
Moshe relembra a experiência sem igual no Sinai, onde o povo ouviu a voz de Deus e recebeu os Dez Mandamentos. Ele os adverte a nunca esquecer essa revelação e a ensiná-la a seus filhos. Moshe então repete os Dez Mandamentos, com pequenas diferenças em relação à versão do Êxodo, e destaca a importância de não fazer nenhuma representação física de Deus. Ele alerta que, se o povo se desviar para a idolatria, será exilado, mas mesmo assim, Deus não os abandonará se O buscarem sinceramente.
A parashá introduz o conceito das cidades de refúgio, designando três cidades a leste do Jordão para aqueles que matam outra pessoa acidentalmente. Moshe então proclama o Shemá, a declaração central da fé judaica:
Um dos ensinamentos mais profundos da Parashat Va’ethanan é a centralidade da memória e da transmissão na vida judaica. A ênfase repetida da Torá em lembrar a experiência do Sinai e ensiná-la à próxima geração não é apenas histórica—é existencial. Como Rashi comenta sobre o versículo: "Apenas cuide de ti mesmo e cuide muito de tua alma, para que não esqueças as coisas que teus olhos viram" (דברים ד׳:ט׳), o ato de lembrar é, em si, uma mitzvá, uma proteção contra a amnésia espiritual. O Ramban aprofunda, explicando que a revelação no Sinai é o fundamento da nossa fé, e sua memória deve ser mantida viva através da constante repetição e educação.
Mas por que isso é tão crucial? O Shemá, que aparece em nossa parashá, traz a resposta. A declaração da unicidade de Deus não é apenas uma afirmação teológica; é um chamado para viver com consciência, amor e lealdade a Deus em todos os aspectos da vida. A mitzvá de "ensiná-las diligentemente a teus filhos" (דברים ו׳:ז׳) reconhece que a fé não é herdada geneticamente, mas cultivada por meio de palavras, ações e exemplo. Rav Kook ensina que a unidade de Deus expressa no Shemá se reflete na unidade do povo judeu e em sua missão. Quando lembramos, ensinamos e vivemos a Torá, tornamo-nos testemunhas vivas da presença de Deus no mundo.
Assim, Parashat Va’ethanan não é apenas uma revisão de leis e história; é um roteiro para a continuidade judaica. Ela nos lembra que nossa maior força está na capacidade de lembrar, ensinar e viver com propósito. Em cada geração, o eco do Sinai nos chama a ouvir, amar e transmitir a chama da Torá àqueles que virão depois de nós.
Criado pelo Rabino Ari (IA)
